sabe o que acontece, meu bem, é que eu não me apegarei
jamais
nunca me apegarei a toda a companhia que você tem me feito
nesses dias em que me sinto solitária como num deserto cheio de gente
não mesmo
não me apegarei nem mesmo ao carinho que você me dispensa
coisa que nenhum homem ofereceu
não me apegarei de jeito nenhum ao seu modo gentil e carinhoso
de me atribuir adjetivos sem saber se vou gostar
mas com atenção observa a reação
nem a isso, não vou me segurar
não vou me apegar à sua voz maravilhosa
que eu gostaria de ouvir todos os dias, como se fosse uma prece
nem mesmo me apegarei a todos os abraços que sonhei receber de você
e que não tenho dedos disponíveis para contá-los
não vou
não irei me apegar um só segundo aos planos malucos que,
me desculpe,
já fiz,
da gente explorando restaurantes vegetarianos por toda salvador
não vou me apegar nem um só segundo ao seu jeito
de me dizer coisas que fazem meu coração vibrar
e de vez em quando
meu cérebro explodir
não vou mesmo, não tem como
me apegar a todos esses sentimentos imensos que sinto
que me deixam confusa, atordoada e ao mesmo tempo relaxada
nem vou me apegar, imagine só, à linguagem que criamos
essas palavras que são comuns, mas
quando as ordenamos desse jeitinho bem peculiar
se tornam um dialeto especial que guarda memórias
não vou de modo algum me apegar às notificações de e-mail
um,
dois,
nove,
treze e-mails não lidos
na minha caixa de entrada
brilhando como laços de fita de um presente
que eu anseio por descobrir o conteúdo
não me apegarei à fidelidade que jamais existirá entre nós
não me apegarei à libido, ao suor, ao torpor deliciosos
tampouco me apegarei aos momentos de silêncio oportunos
não há possibilidade de apego a todos os poemas que lemos juntos
ou que imaginei que pudéssemos ler em algum momento
não me apegarei a nada, amor, pode respirar tranquilo
a quem eu quero enganar?
não vou me apegar a todas as experiências ditas e não ditas
registradas em mim em alguma camada
não vou oferecer um apego sequer ao grande acaso da vida:
nos encontrarmos
não me apegarei a sua idade
e à minha insegurança de que você me acha tola
não me apegarei à minha ingenuidade
não me apegarei a você em nenhum estado
não me apegarei às mensagens velhas, aos áudios longos
aos sentimentos que já morreram
como estrelas velhas que ainda insistem em brilhar
não me apegarei um só segundo, eu digo a mim mesma, não tenho razão para
não posso, me esvazio de apego,
não me apegarei a preenchimentos de vazios
e então, meu bem, sobretudo
não me apegarei ao apego
que declaradamente já criei por você

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Calma, miga, é só um boy

Do caos a lama

Sobre as coisas que sinto quando lembro do seu abraço