Que tipo de arte queremos consumir?

É um pouco assustador pensar que nosso senso de estética, humor e qualidade na arte foram estabelecidos, pensados e determinados por um viés branco, hetero, magro e machista. A cultura na qual estamos inseridos determina muito mais sobre nós do que supõe nossa vã filosofia. Quem nos ensinou a acharmos bonito aquilo que achamos bonitos e acharmos feios aquilo que achamos feios ou inadequados? De onde vem a dificuldade de citar um diretor negro. Uma diretora negra? Um diretor que não seja americano ou europeu. Uma diretora brasileira. Por que não há gordos nos filmes sem que precisemos falar de seu peso ou do quanto comem? Qual a ideologia está nas entrelinhas das piadas gordofóbicas dos filmes? Como aprendemos a definir o que é engraçado e o que não é engraçado? Por que adolescentes se divertiram com filmes como American Pie cuja carga de machismo é tão imensa e aquilo nunca foi problematizado? Eu me diverti com American Pie, quantas doses de besteirol americano eu engoli até suportar facilmente as doses de racismo, gordofobia, machismo e homofobia em que esses filmes se baseiam? Por que não há protagonistas negros sem que a cor da sua pele seja tema discutido em uma obra de arte seja filme, série ou livro? Por que não negros como protagonistas em filmes de amor? Por que tão poucos negros nos filmes medievais? Por que todo protagonista é magro? Tudo bem, aí alguém pode me dizer que já viu um filme que tinha um protagonista negro, que era gay e que ninguém estava falando sobre cor de pele ou que Denzel Washington, Samuel L. Jackson e Morgan Freeman são grandes estrelas de Hollywood. Três homens negros que foram protagonistas e olhe lá. Essas obras são tão poucas que podemos facilmente citá-las, eis a prova de quão escassos são os referenciais de produções livres do padrão eurocêntrico-heteronormativo. Qual foi o último filme não americano que passou na Sessão da Tarde? Eu não estudo cinema e justamente por isso posso dizer que nós leigos que gostamos de ver filmes, somos alimentados por obras feitas sob um referencial muito estreito e que mal sabemos quais implicações disso no nosso olhar estético. Essas coisas parecem não ter importância, mas fomos alimentados desde criança com besteiróis americanos a torto e a direito e a gente mal sente quão incrustados estão esses conceitos em nós. Só quando nosso olho dói, nossa testa se franze e a gente sente um certo desconforto quando somos expostos a obras orientais, ou com protagonistas gordos, ou até quebras sutis como o cinema francês de um humor puro e simples, sem falar de pênis, masturbação masculina ou pessoas gordas tomando quedas, como estamos acostumados a ver nas comédias americanas com traduções ridículas. E os estereótipos? A mulher negra gorda barraqueira, que se veste mal, fala alto e é mal-educada. O estudante imigrante indiano que é nerd, nervoso, tímido e nunca arranja namorada. A asiática magrinha de cabelos coloridos, com fone de ouvido, chata, que não transa. O gordinho branco nervoso, que sua em bicas e precisa necessariamente ser muito engraçado para conversar com alguma garota com quem seu amigo branco, forte, atleta e popular não precisaria fazer o menor esforço. Competitividade feminina, futilidade, machismo, objetificação da mulher, até a quantidade de fala das mulheres na grande maioria desses filmes mais populares, que realmente alcançam a maioria das pessoas, é menor do que a quantidade ou até relevância das falas masculinas. É comprovado que Branca de Neve tem menos fala do que qualquer um dos anões, até Dunga que é mudo, no filme que carrega seu nome. É bizarro pensar isso em tempos de Valente, Malévola, Frozen e Moana, as coisas estão começando a melhorar pras meninas (+50 pontos pra Grifinória e amém índice de Bechdel). É fundamental pensarmos nas pessoas pequenas se quisermos curar essa nossa cultura tão violenta. Os desenhos que elas assistem, as meninas são frágeis e indefesas? Os meninos são os gênios e aventureiros e as meninas só estão ali para serem suas namoradas? Até quando vai ser permitido subjugar as meninas em detrimento de inflar o ego dos meninos? Que geração de meninos estamos criando, qual o nível de violência no discurso e no comportamento dos personagens que eles idolatram? Precisamos aceitar: os filmes que passamos a infância e adolescência assistindo foram majoritariamente feitos por homens brancos para entreter homens brancos, que são a classe dominante, é quem aprova mesmo o que vai passar ou não, são eles que decidem tudo, estão no topo de todas as instituições de poder. O perigo é o quanto daquilo foi sendo enraizado dentro de todos sem crítica, sem análise da ideologia que permeia cada pequena frase de efeito de um filme assistido por todo mundo. O cinema é um diagnóstico de nossa sociedade, quem tem poder, quem tem lugar de fala, de expressão, é quem resolve o que vai ser produzido, quanto dinheiro será usado, tudo milimetricamente planejado para consumirmos o que eles decidirem. A parte boa é que já foi pior, hoje em dia nós temos Netflix, internet e todas as informações a nosso dispor para escolhermos em qual mundo vamos mergulhar, com o que vamos alimentar nosso imaginário, quais padrões estéticos vamos desconstruir e quais vamos abrir nesse campo vasto de possibilidades. É super importante ser desestabilizado pelo choque de outras obras, por uma direção com um toque totalmente perturbador e quebra de paradigmas. É importante ser submetido a outras produções, outros olhares, outras línguas, ver a vida retratada na arte por pretos, pretas, lésbicas, iranianos, moçambicanos, angolanos, australianos, húngaros, espanhóis, coreanos, japoneses. É fundamental quebrar o monopólio do referencial megalomaníaco de consumo americano. Ainda que a gente goste dos filmes independentes e saia de Hollywood, precisaríamos nos questionar: de onde vem aquele olhar que nos passa tanta sensibilidade e com pouquíssimos apelos a efeitos especiais, computadorização, violência, etc e por que isso não chega às classes populares? Ou ainda que possua esses elementos. Só o que quero provocar é que a gente pare de só consumir filmes americanos de homens brancos heteros magros e achar que cinema de qualidade se resume a isso. Eu fico envergonhada com a arrogância dessa afirmação povoando a cabeça das pessoas. Isso não tem como ser saudável. O que finalmente precisamos questionar é nossa cultura e quão suja e podre ela é, podemos reinventar a cultura, é um processo de retroalimentação, se a gente muda, todos os referenciais mudam porque somos nós que consumimos tudo que é produzido. Que tipo de arte queremos consumir? Que tipo de arte nos representa?




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