eu não, mas

meu ego jaz estilhaçado no meio do chão da cozinha como um prato que caiu por acidente

dessa vez a surra foi demais, disseram que a ilusão lhe corroeu como uma úlcera sem limites, uma cólera, uma peste

foi pega desprevenida pela prescindibilidade de sua existência. achava que valia uma nota, uma estrela, um cartão postal, achou mesmo brilhar alguma coisa

não valia nada, era como qualquer outra pedra na calçada, um anel de lata de cerveja que nunca sabemos o que fazer com ele, então a gente apenas

larga


ou bota no bolso e esquece pra sempre que botou

doído e dolorido, esquisito e sem paz, meu ego agoniza e gostaria de se fundir com uma dessas paredes brancas

sumir sem precisar se explicar, seu orgulho lhe dói demais, eles não vão entender como nunca entendem

não ela de verdade

a ela do ego é a que se sente um completo nada como uma poça de chuva no barro vermelho

demora dias pra secar e fica só ali existindo sem propósito e com dias contados

ela que o ego guia, a que tem as preocupações mundanas

a eu do meu ego

conheço muito bem: é agora uma mulher despedaçada, sem retorno

ela está se sentindo muito estranha mesmo, como se nada fizesse sentido [e a pressa de se livrar da sensação de que nada faz sentido é ainda maior]

essa moça é inteligente, segura e formidável, mas agora moribunda, dá pena de ver

essa é a que está morrendo numa cerimônia lúgubre na qual ninguém vai chorar, ninguém vai se despedir

e ela parece tão pequena agora, minúscula, ínfima, coitada, sempre foi pequena assim?

um metro e meio de puro engano

deteriorou-se sem remédio pelo golpe da espera ansia

vai tarde, todos pensam, ninguém a suportava mais, mas nunca tiveram coragem de lhe dizer, ela era sorridente demais, não queriam lhe assassinar assim tão moça

mas o que palavras não fizeram o silêncio fez…e ei-la assim: terminando, acabando, putrefata, um lixo


sobre a que está nascendo

eu não sei de nada

ela não,

ela é outra coisa

e já estou vendo daqui

começou a nascer do pó

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